Fragata "Liberal" integra Força Tarefa Marítima da ONU no oeste asiático.
Mais de 250 militares estão na missão. Navio ficará em Natal até quarta (13)
Jocaff Souza
Do G1, em Natal
Uma embarcação da Marinha do Brasil que realiza ações de pacificação e treinamento à militares no Líbano
atracou na manhã deste sábado (9) no Porto de Natal. A fragata,
denominada “Liberal”, está há dez meses no mar Mediterrâneo, monitorando
a costa do país asiático que faz fronteira com Israel. A região é
considerada pela Organização das Nações Unidas uma das mais perigosas do
mundo.
Fragata Liberal atracou no Porto de Natal neste sábado (Foto: Jocaff Souza/G1)
O navio integra a Força Interina das Nações Unidas no Líbano (UNIFIL),
entidade criada pelo Conselho de Segurança da ONU para impedir a entrada
no território libanês de armamento ilegal e drogas, oriundos do país
israelense, como também controlar todas as embarcações na área de
operações marítimas, delimitada num espaço de mais de 100 milhas
náuticas, o que corresponde a 200 quilômetros de área a ser fiscalizada.
Uma parte desse contingente de militares atua na fronteira terrestre do
Líbano com Israel e tem o objetivo de evitar confrontos armados entre
israelenses e a milícia xiita Hezbollah. Seis forças militares integram
essa força tarefa marítima, criada a partir de uma resolução: Brasil, Alemanha, Bangladesh, Indonésia, Turquia e Grécia.
Com. José Luiz Ferreira Canela, Capitão de Fragata
da Marinha do Brasil (Foto: Cleber Ribeiro)
O comandante da embarcação é o capitão de fragata José Luiz Ferreira
Canela, que há 27 anos faz parte da Força Militar Brasileira. Para o
capitão, que lidera uma tripulação de mais de 250 militares, atuar no Oriente Médio
é extremamente perigoso, devido ao clima de tensão nos países. “A
região do Oriente Médio é um ambiente onde ocorrem diversos conflitos e
para que a tripulação não ficasse apreensiva, fizemos um trabalho de
conscientização, com o auxílio de um unidade de assistência social da
própria Marinha brasileira, formada por psicólogos”, explica capitão
Canela.
Outra forma de manter a serenidade dos militares foi com a ajuda da
tecnologia. De acordo com o comandante da Fragata, um grande aparato
tecnológico foi instalado no navio para que a tripulação pudesse se
comunicar com os familiares. “Sabemos que essa missão tinha um clima
diferente, porque existia a possibilidade real de entrarmos em conflito
com outras tropas. Por conta disso, foi solicitado um esquema de antenas
via satélite, para que a nossa tripulação tenha acesso à internet e
possa conversar com sua família. Isso motiva o grupo e faz com que o
trabalho fique menos estressante”, conta.
Segundo o capitão Canela, a passagem por Natal
também serve como um “período de arejamento” para os militares, pois
muitos estão há tempos longe de casa e em determinado momento tem o seu
rendimento profissional diminuído. “Além da questão logística, nossa
passagem por Natal é importante, por questões logísticas para o
reabastecimento da embarcação e serve também para que a nossa tripulação
possa sair um pouco do navio para manter a estabilidade emocional, já
que ficamos muito tempo nesse ambiente de área de conflito. Muitos dos
nossos homens são da região Nordeste do Brasil e as famílias acabam se
programando para se encontrar e matar a saudade”, explica.
Percurso paradisíaco
A fragata Liberal embarcou para a missão o extremo oeste asiático no
dia 10 de abril de 2012, para iniciar a “Operação Líbano II”. Durante o
percurso, fizeram duas paradas para reabastecimento, sendo a primeira no
Porto Las Palmas, nas Ilhas Canárias, e a segunda na Base de Taranto,
na Itália. A chegada ao Líbano foi um mês após o embarque, com a
responsabilidade de ser a primeira força de paz a serviço da ONU naquela região.
Durante o período em que permaneceu em operação, a fragata Liberal
recebeu visitas protocolares e de membros da ONU para verificar o
desenvolvimento da ação. Em território asiático, os militares
brasileiros foram responsáveis por um “período de adestramento” com a
tropa libanesa, que dispunha de pouco contingente e tecnologia. O
comandante da embarcação explica que o treinamento é simples, mas que
exigiu dos militares brasileiros uma motivação especial para auxiliar a
Marinha do Líbano. “Ao chegarmos no Líbano, fomos convocados para um
adestramento com os militares libaneses. Eles não possuem tanta
tecnologia como a nossa Marinha, tão pouco um número equivalente a nossa
tropa. Mas sobrou disposição e vontade de aprender as instruções. Isso
motivou ainda mais os nossos homens, que puderam passar um pouco da
experiência militar”, destacou o capitão de fragata Canela.
Existia a possibilidade real de entrarmos em conflito com outras tropas"
Capitão de Fragata Canela, Comandante da Fragata Liberal
A saída da tripulação de Beirute, capital libanesa, aconteceu no dia 16
de janeiro deste ano. Segundo o capitão Canela, a volta foi bastante
complicada, pois a embarcação enfrentou um mar revolto e com grandes
ondas, que passavam dos três metros de altura. “Nossa embarcação
balançava muito e a tripulação precisou redobrar a atenção. Foram alguns
momentos de tensão, mas que serve de aprendizagem para todos nós”,
conta.
Ao passar pela Itália, a fragata Liberal atracou no Porto de
Civitavecchia, na cidade de Roma, onde participaram de uma audiência com
o Papa Bento XVI e representantes da Organização do Tratado do
Atlântico Norte (OTAN). De lá, a embarcação passou pela região de
Tenerife, maior ilha do arquipélago das Canárias, que pertence à Espanha. Em Natal, a Fragata e sua tripulação ficarão atracadas até a próxima quarta-feira (13), onde seguem viajem para o Rio de Janeiro.
Estrutura moderna
Comandante Canela mostra a cabine de manobra da Fragata Liberal (Foto: Jocaff Souza/G1)
A embarcação é o quarto navio da Classe Niterói, construída em janeiro
de 1975, na cidade de Woolton, na Inglaterra. Sua estreia nos mares foi
em 7 de fevereiro de 1977. Em 18 de novembro de 1978, a Fragata foi
incorporada à Marinha do Brasil. Desde então, realiza operações com
navios da Esquadra Brasileira em território nacional e internacional.
Sua tripulação é composta por 29 oficiais e 250 praças, dividida em
quatro departamentos – armamento, operações, máquinas e intendência.
Para a “Operação Líbano II”, um grupo do Destacamento de Mergulhadores
de Combate, formado por nove militares, foi designado para ficar de
prontidão, caso houvesse qualquer conflito. Outro grupo, formado por 19
fuzileiros navais, fez o suporte para a segurança da embarcação durante
toda o período em operação.
Helicóptero Super Lynx AH-11A auxilia nas açõa da
Força Tarefa Marítima (Foto: Jocaff Souza/G1)
As instalações são modernas e possuem equipamentos tecnológicos de alta
precisão, como sensores aéreos e aquáticos para detectar e identificar
embarcações, além de uma artilharia de combate, composta por lançadores
de mísseis e foguetes, canhões, metralhadoras e uma aeronave, o
helicóptero Super Lynx AH-11A, foi utilizada com armamento para a
superfície, que serve de apoio para ações de combate e resgate de
feridos.
O navio possui quatro motores e duas turbinas, que utilizados em força
máxima, atingem uma velocidade de até 31 nós, o que representa em média
60 quilômetros.
“Filho da terra”
Uma experiência inesquecível. É assim que muitos militares relatam
sobre as ações e os serviços praticados ao longo desses dez meses fora
do país. Para um deles, a emoção da volta é ainda mais especial, já que é
nascido aqui em Natal. O sargento Marcos Santos é especialista em
operação de sonar e trabalha numa das áreas mais críticas da embarcação,
o centro de operações de combate.
O local é fechado e todos os militares permanecem o dia inteiro
concentrados numa sala fechada, atentos a qualquer embarcação que possa
vir em direção à Fragata. Segundo o sargento, todo período fora de casa
se torna um aprendizado a mais para a carreira do militar. “É uma
experiência profissional e pessoal inesquecível. Conheci muitos lugares e
vi muitas situações diferentes do meu dia a dia. Fica aquele sentimento
de dever cumprido e de muito orgulho em fazer parte dessa força de
paz”, conta o militar.
Natalense de nascimento, Marcos fala da emoção de reencontrar a família
e da responsabilidade de honrar a sua atividade. “A felicidade é muito
grande, principalmente por estar em Natal, já que sou filho da terra,
como costumamos falar. Quando estamos em ação e dizemos que somos
brasileiros, a recepção é diferenciada. Isso mostra a responsabilidade
que temos com a nossa pátria e com o nosso serviço”, conta.
Sargento Marcos Santos reencontra a família após dez meses em serviço (Foto: Jocaff Souza/G1)
Emoção compartilhada pelo pai dele, Manoel Bezerra. Sem encontrar seu
há quase um ano, o pai não aguentou a saudade e chorou ao revê-lo. “É
muito gratificante ter um filho participando dessa operação. Me traz
muito orgulho, como também para toda a família”, relata.